Diário Oficial do Município do Rio de Janeiro

Cais do Valongo é eleito Patrimônio da Humanidade pela Unesco

09/07/2017 18:45:00  » Autor: Fotos: Arquivo Prefeitura do Rio


Marco da herança africana no Rio de Janeiro, o Cais do Valongo agora é Patrimônio da Humanidade. O Comitê do Patrimônio Mundial da Unesco avaliou a inscrição do sítio arqueológico na 41ª reunião anual da organização, realizada na cidade de Cracóvia, na Polônia. O anúncio foi feito neste domingo (09/07).

 

A secretária Municipal de Cultura, Nilcemar Nogueira, representando a Prefeitura do Rio no evento, comemorou a importante conquista, que definiu como etapa essencial para o reconhecimento de uma memória "que precisa ser revelada e, principalmente, reparada".

 
 
– Este momento marca o início de uma nova fase em relação ao reconhecimento de uma história que, por muitas décadas, esteve nos subterrâneos do que oficialmente conhecemos do nosso país. A primeira medida, agora, será instalar um centro de referência no Cais do Valongo, como preconiza a Unesco, para que os próprios brasileiros conheçam um pouco mais sobre sua cultura – disse Nilcemar.
 
 
 
A secretária também destacou a instalação do Museu da Escravidão e da Liberdade, nome ainda provisório, no Galpão Pedro II, localizado ao lado do Cais do Valongo. Construído por André Rebouças, primeiro arquiteto afrodescendente do Brasil, o prédio é um ponto estratégico para o desenvolvimento de um projeto que pretende ser mais do que uma instituição de guarda e exposição de acervos, mas que abranja toda a territorialidade do entorno do que ficou conhecido como Pequena África.
 
 
 
– O que se preconiza é um museu vivo, de uma relação experiencial e de conscientização do indivíduo. Precisamos resgatar a nossa história. Apesar de todas as formas implementadas no sentido de negar a contribuição do negro na construção da cultura de nosso país, esta se demonstrou forte o bastante para se afirmar diante de todas as intempéries – enfatizou a secretária.
 
 

Aterrado em 1911, o cais foi redescoberto um século depois, em 2011, durante as obras de revitalização da região do porto. O dossiê de candidatura do Cais foi elaborado pela Prefeitura do Rio em trabalho conjunto com o Iphan.


 
- A cidade do Rio é importantíssima na constituição da cultura brasileira, com sua mistura e diversidade, como comprova a importância histórica do Cais e de seu resíduo arqueológico. O reconhecimento reforça ainda a vocação do Rio para o turismo – destacou o secretário de Urbanismo, Infraestrutura e Habitação (SMUIH), Indio da Costa.


 
Os arqueólogos do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH), órgão vinculado à SMUIH e presidido por Augusto Ivan, estão fazendo o levantamento dos, aproximadamente, 500 mil itens que foram encontrados nos locais durante as intervenções. As peças, que incluem adornos, objetos, amuletos e ossadas, estão na Vila Olímpica da Gamboa.

 


- Sem dúvida, para o mundo inteiro, será um ponto de referência para quem estuda e pesquisa essa questão trágica da história humana. O Cais do Valongo é quase um memorial de repúdio à escravidão. No seu entorno se desenvolveu grande parte da cultura afro-brasileira, é onde temos a Pedra do Sal, quilombos, é um coalhado de memórias, sendo o Cais o epicentro – disse Augusto Ivan.

 

O Sítio Arqueológico do Cais do Valongo é considerado o mais importante vestígio material, fora da África, do tráfico atlântico de africanos escravizados, expressando material e simbolicamente um local que representa um registro da ação criminosa contra a humanidade. Em 2013, foi reconhecido como sítio de memória do Projeto Rota do Escravo – Resistência, Liberdade e Patrimônio, da Unesco.

 

 
Sobre o sítio arqueológico do Cais do Valongo
 
 
O Brasil recebeu cerca de quatro milhões de escravos nos mais de três séculos de duração do regime escravagista, 40% de todos os africanos que chegaram vivos nas Américas, entre os séculos XVI e XIX. Destes, aproximadamente 60% entraram pelo Rio de Janeiro, sendo que aproximadamente um milhão pelo Cais do Valongo. A partir de 1774, o desembarque de escravos no Rio foi integralmente concentrado na região da Praia do Valongo, onde se instalou o mercado de escravos que, além das casas de comércio, incluía um cemitério e um lazareto.
 
 
 
O local foi desativado como porto de desembarque de escravos em 1831, quando o tráfico transatlântico foi proibido. Em 1843, o local foi aterrado para receber a princesa Teresa Cristina, esposa do Imperador Dom Pedro II, recebendo o nome de Cais da Imperatriz. Durante as obras do Porto Maravilha, em 2011, foram encontrados objetos como parte de calçados, botões feitos com ossos, colares, amuletos, anéis e pulseiras em piaçava de extrema delicadeza, jogos de búzios e outras peças usadas em rituais religiosos.
 
 
 
Em 2012, a Prefeitura acatou a sugestão das Organizações dos Movimentos Negros e transformou o espaço em monumento preservado e aberto à visitação pública. O cais passou a integrar o Circuito Histórico e Arqueológico da Celebração da Herança Africana, que estabelece marcos da cultura afro-brasileira na Região Portuária, ao lado do Jardim Suspenso do Valongo, Largo do Depósito, Pedra do Sal, Centro Cultural José Bonifácio e Cemitério dos Pretos Novos.



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