16/09/2016 15:43:00 » Autor: Flávia David / Fotos: Carlos Erbs Jr.
A dois dias do encerramento dos Jogos Paralímpicos Rio 2016, os alunos do Ginásio Experimental Olímpico (GEO) Félix Mielli Venerando, no Caju, viveram nesta sexta-feira (16/09) uma rotina inédita e, para muitos deles, inesquecível. Os estudantes de 6º e 7º anos tiveram a oportunidade de experimentar as sensações vividas por atletas portadores de deficiência durante a prática de várias modalidades, que simularam as limitações que enfrentam. Esportes como vôlei sentado, corrida guiada, arremesso de peso, basquete adaptado e goalball atraíram a atenção - e admiração - de centenas de alunos. Baseados nos eixos metodológicos do Ginásio Carioca, os GEOs têm como objetivo aliar desenvolvimento acadêmico e esportivo para alunos do 6º ao 9º Ano.
- É um trabalho fantástico. Não importa o que você faz, mas é preciso saber perceber o outro, com suas diferenças e limitações. É preciso se colocar no lugar da outra pessoa. Por isso, é um projeto que incentiva o reconhecimento das diferenças que cada um tem, independente de deficiência ou não. Uma iniciativa que nos faz olhar para os outros com muito mais respeito, que nos estimula a melhorar - disse a secretária municipal de Educação, Helena Bomeny.
Moradora da Barreira do Vasco, Zona Norte da cidade, a estudante Cintia Linhares dos Santos, de 11 anos, pratica judô desde pequena e sonha se profissionalizar no esporte. Para ela, que disse ter vivido uma experiência "única" ao lutar com os olhos vendados, a prática de esportes é essencial:
- Foi incrível experimentar isso. Com os olhos vendados a gente não enxerga e precisa sentir o oponente de outra forma. Adoro praticar esportes, especialmente o judô. Sempre falo pra todo mundo que, mesmo com limitações, é muito importante fazer algum esporte. Pois ele nos ajuda a progredir na vida.
Os Ginásios Experimentais Olímpicos foram criados com a missão de dar oportunidade para os alunos com aptidões esportivas desenvolverem seu potencial, sem abrir mão de uma educação de excelência. A cidade conta hoje com quatro unidades, que juntas beneficiam mais de 1.700 alunos. Além da rotina de treino, com pelo menos duas horas por dia de prática esportiva, e da participação em diversas competições, os alunos têm mais aulas de Português, Matemática, Ciências e Inglês, aulas de reforço e o incentivo para tirar boas notas. Além do cuidado acadêmico, o apoio ao projeto de vida do aluno e a educação para valores também formam a base do projeto pedagógico das unidades.
Trabalhando na unidade do Caju há pouco mais de um ano, o professor de Educação Física André Lobo afirmou que os alunos são dedicados e se mostraram ainda mais interessados ao saber da possibilidade de vivenciar um universo novo nas atividades desta sexta-feira:
- É muito válida essa experiência de fazer com que os alunos vivenciem situações atípicas. Eles estão acostumados a correr de olhos abertos, buscando rendimento e velocidade. E com esportes como a corrida guiada, por exemplo, um precisa confiar no outro. Ou seja, é um esporte individual que passa a ser coletivo. Essa iniciativa é fundamental para a formação de parcerias, para a conscientização sobre o cuidado que um precisa ter com o outro.
A questão da parceria também foi destacada pelo aluno Brian Ferreira Oliveira, de 12 anos. Morador de São Cristóvão, ele participou de uma partida de goalball. Para o estudante, que tem o handebol como sua modalidade preferida, a experiência foi "muito legal" e reforçou seu carinho pelos atletas paralímpicos:
- Experimentar a sensação de não ver de onde a bola vem foi demais. Admiro esses aletas que, mesmo com as suas limitações, conseguem jogar, e bem.
Duas das modalidades que mais atraíram os alunos, o atletismo, com aulas de corrida guiada, e o arremesso de peso na cadeira encantaram os participantes. A adolescente Vitória Lima, de 12 anos, falou sobre a experiência de correr de olhos vendados, presa à sua guia por uma corda. Apesar da dificuldade que enfrentou, ela disse ter se colocado no lugar dos atletas com deficiência ao vivenciar sua rotina.
Para a aluna Gabriela Sodré, também com 12 anos, arremessar uma bola de quatro quilos (peso oficial da modalidade), sentada em uma cadeira, foi um "desafio e tanto":
- Para os atletas que praticam esse esporte, é um exemplo de superação. Quando estamos sentados, o peso da bola se torna ainda maior do que é na realidade. Não sei como eles conseguem. São uns guerreiros.

Além de conhecerem as modalidades na prática, os alunos do GEO Félix Mielli Venerando também produziram trabalhos sobre os Jogos Paralímpicos Rio 2016, expostos nos murais da unidade.
Criado em 2012, o primeiro Ginásio Olímpico Experimental, em Santa Teresa, recebeu o nome do ex-presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), Juan Antonio Samaranch, falecido em abril de 2010. Com apenas quatro anos de criação, sagrou-se bicampeã do Intercolegial (2014 e 2015), sendo a primeira escola pública na história a conquistar a primeira colocação, desbancando colégios particulares de tradição na competição. O GEO também ficou em 2º lugar nos Jogos Estudantis, novamente sendo a primeira escola pública a alcançar tal posição na história da competição.
Em 2013, os Ginásios Olímpicos Dr. Sócrates, em Pedra de Guaratiba, e Félix Mielli Venerando, no Caju, começaram a funcionar. Em 2016 foi inaugurado o GEO Nelson Prudêncio, na Ilha do Governador.
Baseado no conceito de Desenvolvimento Esportivo de Longo Prazo, os estudantes experimentam diferentes modalidades no 6º ano e escolhem uma delas para praticar três vezes por semana. Nos demais dias, eles praticam os esportes restantes. Nos 7º e 8º anos, os alunos dedicam quatro dias à modalidade principal; e no 9º, os cinco dias da semana.
Nos quatro GEOs em funcionamento, as modalidades esportivas oferecidas são atletismo, tênis de mesa, vôlei, handebol, judô, xadrez, luta olímpica e badminton. Além destas, as unidades de Santa Teresa, Pedra de Guaratiba e Ilha do Governador, também oferecem natação. Na última, os alunos também praticam futebol.
Para ingressar nessas unidades, o aluno precisa fazer um teste de aptidão física.


