Secretaria Municipal de Cultura - SMC
Cais do Valongo recebe título de Patrimônio Mundial da Unesco

23/11/2018 11:20:00


 

 

O prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, enfatizou nesta sexta-feira, 23 de novembro, o simbolismo do Cais do Valongo na luta contra o preconceito e a discriminação que sofre a população negra. Foi durante solenidade de entrega oficial do título de Patrimônio Mundial da Unesco ao sítio arqueológico localizado na Saúde, região central da cidade. O Cais do Valongo foi escolhido no ano passado para receber a honraria por ser o único vestígio material do desembarque de cerca de um milhão de africanos escravizados nas Américas. A cerimônia desta sexta aconteceu no Museu de Arte do Rio (MAR), durante a abertura do "Seminário Internacional Cais do Valongo, Patrimônio Mundial - desafios de Gestão e Interpretação".

 

 

– Nossa sociedade tem uma dívida histórica, e a Prefeitura do Rio de Janeiro tem de todas as formas tentado apoiar a luta contra qualquer tipo de discriminação e preconceito. Discriminar o negro é discriminar a si mesmo, é discriminar o Brasil – afirmou Crivella. – Hoje o Cais do Valongo passa a ser patrimônio da humanidade. Não são só as pedras do Cais do Valongo, mas a diáspora africana para o Brasil e como eles, os africanos, com tanto sacrifício, sangue, suor e lágrimas, nos ajudaram a construir um país tão bonito quanto o nosso e que supera dificuldades tão grandes quanto as que nós temos superado ao longo da nossa História – completou o prefeito.

 

 

O seminário pretende ampliar o diálogo com a população sobre o processo de construção da gestão compartilhada do Cais do Valongo e do Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira. A representante da Unesco, agência da Organização das Nações Unidas (ONU) para a educação, a ciência e a cultura, Marlova Noleto, foi quem entregou ao prefeito Crivella e à secretária municipal de Cultura, Nilcemar Nogueira, o documento emoldurado que atesta a concessão do título ao Valongo.

 

 

– Esse título faz o resgate da história da escravidão dos negros no Brasil. Ele só tem comparação, um paralelo, com o do Holocausto, e por isso a minha emoção – afirmou Noleto, que é judia, com voz embargada. – São eventos da História que a Unesco ajuda a relembrar, e ao relembrar a gente pode dizer: nunca mais! Porque a humanidade não pode assistir silenciosa a tamanhos atos de violação dos direitos humanos – concluiu.

 

 

A secretária Nilcemar Nogueira ressaltou que o reconhecimento ao Cais do Valongo é uma forma de resistência na luta pelos direitos dos negros.

 

 

– Hoje estamos refletindo sobre conservação, preservação e gestão do Cais do Valongo. A escravidão nunca pode destruir histórias. A lembrança é nossa resistência. Precisamos nos orgulhar da nossa força criativa, evocar o sentimento de nação e, principalmente, o sentimento de que somos todos iguais – disse.

 

 

Kátia Bogéa, presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), enumerou os desafios à frente, que envolvem poder público e sociedade, numa gestão compartilhada entre diversos entes para não só gerir a herança do Cais do Valongo, mas também interpretá-la.

 

 

– Vamos nos debruçar sobre a interpretação que daremos a esse sítio arqueológico. Nosso desafio é erguer as vozes do Valongo à altura que lhes é de direito. E hoje, com a entrega do título de Patrimônio Mundial da Unesco e a realização do seminário, damos importante passo nesse sentido – lembrou.

 

 

Representantes de instituições do movimento negro estiveram na solenidade e foram homenageados.

 

 

– Esse título é uma tomada de consciência, mostra a força dos movimentos sociais, dos quilombolas, dos indígenas. Tudo isso está fazendo com que a gente comece a acelerar um processo de igualdade. Estamos num momento em que a gente está fincando a bandeira e dizendo: Não! A História vai ser contada pelo lado certo, pelo lado verdadeiro – declarou Pituka Nirobi, gestora do setor educativo do Museu da História e Cultura Afrobrasileira (Muhcab).

 

 

OBRAS DE CONSERVAÇÃO COMEÇAM EM DEZEMBRO

 

 

Na última quarta-feira, 21 de novembro, a Prefeitura do Rio lançou a pedra fundamental das obras no Cais do Valongo. Na ocasião, foi realizado o anúncio oficial do aporte financeiro de US$ 500 mil (cerca de R$ 2 milhões) para o projeto. O dinheiro será proveniente da Missão Diplomática dos Estados Unidos no Brasil, com recursos do Fundo dos Embaixadores dos EUA para Preservação Cultural. Outros parceiros da Prefeitura na iniciativa são o Instituto de Desenvolvimento e Gestão (IDG) e o Iphan. O trabalho de conservação do local é o cumprimento de parte do compromisso assumido pela atual gestão quando da escolha como Patrimônio Mundial da Unesco, agência da Organização das Nações Unidas (ONU) para a educação, a ciência e a cultura. O trabalho vai começar em dezembro e deve durar dois anos. Serão realizados o reforço estrutural de paredes e fundações, a restauração do pavimento original de pedras e a drenagem das águas da chuva.

 

 

O objetivo é que as ruínas funcionem como um museu a céu aberto. A intervenção, orientada pelo Iphan e contratada pela Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto do Rio de Janeiro (Cdurp), visa à conservação e à consolidação do Cais do Valongo, cuja importância histórica se deve a seu significado na memória da escravidão no mundo. O sítio arqueológico, descoberto em 2011, durante as obras de revitalização da Zona Portuária, é hoje parte da área da cidade conhecida como Pequena África.

 

 

O projeto conta ainda com o apoio do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH) e teve o tombamento feito recentemente pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac), do governo do Estado do Rio de Janeiro.