Diário Oficial do Município do Rio de Janeiro

 

 


 

Festa no Cais do Valongo celebra título de Patrimônio da Humanidade

10/07/2017 21:02:00  » Autor: Flávia David / Fotos: Paulo Araújo


Emoção. Esse foi o sentimento que dominou os corações, nesta segunda-feira (10/07), no Cais do Valongo, marco da herança africana. Depois de ser declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco, o local foi palco hoje de um dos mais emblemáticos eventos já realizados no Rio. A cultura afrodescentente, em suas mais variadas formas, se fez presente para celebrar um momento, segundo muitos, "único". Para dar maior visibilidade a uma história pouco conhecida pela maioria da população, Secretaria Municipal de Cultura instalará um Centro de Interpretação do sítio arqueológico, além de melhorar a sinalização de todo Circuito Histórico e Arqueológico da Celebração da Herança Africana, no qual o cais faz parte.

 

 

Filha do cantor e compositor Zé Ketti, a carioca Geisa Ketti, de 54 anos, disse que a escolha do local como Patrimônio da Humanidade representou a "redescoberta" da história:

 

 

- Essa questão do Valongo é de uma força imensa. Aqui funcionou o maior porto de vinda de escravos para o país. Eu diria que, naquela época, vivemos uma primeira libertação e agora uma segunda, trazida pela Unesco. Esse reconhecimento representa uma oportunidade infinita para que o mundo conheça a nossa história, tal como ela foi e da maneira que queremos passar para as gerações futuras - disse Geisa, que integra o Conselho Municipal de Defesa dos Direitos do Negro (Comdedine) e também faz parte do Conselho Estadual de Políticas Culturais.

 

 

A celebração começou com o grupo Afoxé Filhos de Gandhi, que arrepiou e botou o público pra dançar ao som de atabaques, hinos africanos e banhos de água de cheiro. Com lágrimas nos olhos, sem esconder a emoção, Celina Rodrigues, mais conhecida como "Mãe Celina", destacou o Cais do Valongo como um local onde "todos os povos se encontram". Celina dirige, há 11 anos, o Centro Cultural Pequena África, no Jardim Suspenso do Valongo.

 

 

- Estou muito emocionada. Não durmo desde ontem. Vivemos um momento único, no amplo sentido da palavra. Vejo que nossa luta não foi em vão. A Unesco mostrou o quanto esse lugar é mágico. E será aqui que nosso povo escreverá uma nova história, de amizade, união, igualdade e muito amor - disse.

 

 

No palco montado no local histórico, diversas pessoas ressaltaram a herança deixada pelos negros que desembarcaram na cidade séculos atrás, trazidos por navios portugueses. Para o coordenador de Relações Internacionais da Prefeitura do Rio, embaixador Antonio Fernando Cruz de Mello, a Unesco prestou um tributo aos negros que desembarcaram na cidade e foram tão importantes para a história do país:

 

 

- É uma homenagem que a comunidade internacional faz àqueles que desembarcaram aqui e nos dignificaram. O prêmio da Unesco demonstra o papel relevante que os negros tiveram, têm e sempre terão para a história do Brasil. É uma homenagem àqueles que deram suas vidas para que estivéssemos aqui hoje celebrando esse momento. Todas as raças que hoje formam o Brasil merecem ser respeitadas. A Prefeitura do Rio se orgulha muito por isso.

 

 

Representante do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) no Rio de Janeiro, a superintendente Monica da Costa falou sobre os esforços que levaram o Cais do Valongo a ser eleito Patrimônio da Humanidade:

 

 

- Para a gente, é uma vitória muito grande, uma vez que nos últimos quatro anos trabalhamos para compor esse dossiê para encaminhar à Unesco junto à prefeitura. O reconhecimento desse cais, resgatando um lado obscuro da história, é algo fantástico e fundamental para a nossa cidadania e entendimento da nossa cultura e ancestralidade afrodescendente. Acredito que temos muito trabalho pela frente. Pretendemos intensificar a parceria com a prefeitura em prol de um trabalho grande de educação patrimonial para que os cariocas vivenciem ainda mais esse pertencimento. Esse lugar é de uma riqueza absurda.

 

 

Também presente ao evento, a coordenadora do Museu da Escravidão e da Liberdade - criado pela Prefeitura do Rio -, Wanda Ferreira, falou sobre a importância desse momento para a cultura afrodescendente:

 

 

- O dia de hoje vem trazer para este país quem somos nós. É o resultado da luta do movimento negro. Não vejo expressão cultural que mais represente o Brasil do que a cultura negra. O nosso mais profundo agradecimento à toda equipe que criou o documento que foi enviado à Unesco.

 

 

A atriz Lica Oliveira disse que a escolha do Cais do Valongo como Patrimônio da Humanidade aumentou a autoestima do brasileiro:

 

 

- A questão do pertencimento é muito importante e acho que agora todos vão despertar para isso. É fundamental que o brasileiro veja que sua história começa aqui. O Cais do Valongo é a melhor maneira de ver e compreender tudo isso.

 

 

Ao seu lado, o ex-atleta Robson Caetano também celebrou a decisão da Unesco e afirmou que é fundamental que a história do povo negro seja levada ao conhecimento de todas as crianças:

 

 

- Redescobrir e levar nossas histórias a frente é fundamental, especialmente nas escolas. Devemos trabalhar para que as crianças entendam, de maneira elucidadora, que há uma riqueza muito grande trazida pela Mãe África. Devemos mostrar o quanto ficamos felizes por aqueles que, mesmo que tenham sofrido, tenham deixado uma riqueza tão maravilhosa para o Rio de Janeiro e o Brasil inteiro.

 

 

A cerimônia seguiu com apresentações de música e leituras dramatizadas, como a que fez o ator Deo Garcez, que contou a história de Luiz Gama, um dos maiores abolicionistas do Brasil.

 

 

O Comitê do Patrimônio Mundial da Unesco avaliou a inscrição do sítio arqueológico na 41ª reunião anual da organização, realizada na cidade de Cracóvia, na Polônia. O Cais do Valongo, desde 2012, integra o Circuito Histórico e Arqueológico da Celebração da Herança Africana, que estabelece marcos da cultura afro-brasileira na Região Portuária, ao lado do Jardim Suspenso do Valongo, Largo do Depósito, Pedra do Sal, Centro Cultural José Bonifácio e Cemitério dos Pretos Novos.




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