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Data:
16 de outubro de 2001
Editoria:
The Economist- p. 3
Suplemento Valor

A internet, livre como nunca

O sistema 3G de internet móvel começa a ganhar o mundo, a partir do Japão. É uma nova era, para usuários e empresas.

A noite chega às ruas iluminadas por néon em Shibuya, Tóquio. A cena lembra uma visão futurista. Ali estão os edifícios coloridos, os enormes outdoors eletrônicos e os grupos de adolescentes vestidos de modo exótico. E, em toda parte, as pessoas falam e digitam em avançadíssimos telefones celulares - minúsculos dispositivos que se fecham como estojos de maquiagem, são incrivelmente leves e dispõem de telas pequenas e coloridas, capazes de exibir um grafismo sofisticado. Mais importante: esses aparelhos permitem que os usuários acessem a internet enquanto se deslocam. No Japão, a internet já é móvel.

Nesse aspecto, dizem os profetas da internet sem fio, a cena vista em Shibuya é, realmente, uma amostra do futuro. A convergência das duas tecnologias de comunicação mais velozes de todos os tempos - telefonia móvel e internet - possibilitará, garantem esses observadores, que se criem inúmeros novos serviços e um novo e vasto mercado, à medida que consumidores no mundo todo passarem a se conectar à rede via telefones habilitados para tal. Empresas de pesquisa de mercado e consultorias prevêem que, até 2004, o número de usuários da internet móvel chegue a um bilhão, contra os atuais 200 milhões.

Cifras como essas motivaram operadoras de redes móveis no mundo inteiro a desembolsar mais de US$ 100 bilhões, no ano passado, para adquirir licenças de uso para redes de "terceira geração" (3G). Ao contrário das redes de segunda geração (2G), já existentes, os sistemas 3G são projetados para manipular dados de modo rápido e eficiente, ao mesmo tempo que transmitem chamadas de voz. Devem, portanto, constituir uma das principais tecnologias a fundamentar a internet móvel. As enormes quantias investidas no 3G configuram a maior aposta já feita na história do setor para a introdução de uma nova tecnologia. As operadoras tentam justificar os espetaculares gastos com uma torrente de entusiasmo.

Entretanto, a desaceleração do setor tecnológico e da economia mundial gerou dúvidas quanto ao futuro do 3G. As gigantescas dívidas assumidas pelas operadoras na compra das licenças e a necessidade de cortar gastos para rolar esses compromissos são algumas das causas do próprio desaquecimento econômico. Além do custo das licenças, as operadoras terão de gastar mais US$ 400 bilhões na construção das redes 3G. Para isso, começaram a formar parcerias com o objetivo de compartilhar infra-estrutura e reduzir custos. Há, também, sérias dificuldades técnicas a contornar. Todos esses fatores concorreram para atrasar o início dos serviços: a primeira rede 3G do mundo foi lançada no Japão em 1 de outubro, com cinco meses de atraso. Redes semelhantes em outras partes do planeta chegarão meses, ou até anos, depois do planejado.

Ao mesmo tempo, as expectativas foram revistas. As operadoras não falam mais da possibilidade de se assistir a videoclipes no trem ou conduzir videoconferências dentro de um táxi. Em vez disso, concentram-se em objetivos mais realistas, como usar o telefone para acessar e-mail, fazer download de notícias e da previsão do tempo e obter informações específicas de uma localidade. Nesse meio tempo, diversas operadoras já lançaram as chamadas redes "2,5 G" - redes 2G atualizadas, que oferecem algumas das vantagens do 3G (em especial, uma conexão para dados sempre ativada), mas custam bem menos. Isso significa que o 3G não será a transformação repentina e miraculosa originalmente anunciada, mas um evolução natural dos sistemas atuais. Além disso, muita coisa já é possível hoje, com as redes móveis existentes.

Em meio à carnificina verificada no setor tecnológico, uma importante transição está em andamento. Mesmo com o atraso no lançamento do 3G, não demorará para que o número de aparelhos celulares conectados à internet supere o número de PCs ligados à rede mundial. A Nokia, otimista, prevê que isso aconteça no ano que vem; a Ericsson, outro fabricante de telefones, aposta em 2003; e mesmos as previsões pessimistas não passam de 2005. Os aparelhos provavelmente serão 2,5G, e não 3G, e substituirão o PC no posto de dispositivo mais utilizado para acessar a internet. Seja como for, o telefone logo será o principal meio de ligação com a web.

Uma analogia óbvia pode ser feita com o surgimento explosivo da internet via telefonia fixa, há cinco anos. Em muitos aspectos, a internet móvel encontra-se no mesmo estágio de desenvolvimento pelo qual passava a internet fixa em 1995. Há centenas de pequenas empresas no ramo e ninguém sabe ao certo quais tecnologias ou modelos de negócios triunfarão, ou mesmo o que esperam consumidores e usuários corporativos. São várias as lições a serem aprendidas a partir dos erros cometidos com a internet fixa. A assimilação desses exemplos é crucial para que as companhias prosperem no mercado de internet móvel.

Outra analogia, menos óbvia, porém mais útil, remonta à passagem do telégrafo elétrico para o telefone, ocorrida nos últimos 25 anos do século 19. O telégrafo, assim como a internet, foi uma tecnologia de comunicação revolucionária, que transformou as práticas sociais e de negócios, mas que só podia ser utilizada por operadores qualificados. Os benefícios do sistema tornaram-se disponíveis para o grande público apenas quando o telégrafo evoluiu e converteu-se no telefone - inicialmente conhecido como "telégrafo falante". A internet ainda está no estágio "telegráfico" de desenvolvimento, no sentido de que a complexidade e o custo dos PCs ainda impedem muitas pessoas de usá-la. O aparelho celular, portanto, promete fazer pela internet o que o telefone fixo fez pelo telégrafo: transformou-o num tecnologia verdadeiramente de massa.

Por usar os mesmos fios, o telefone era visto, em princípio, meramente como um telégrafo falante. Mas revelou-se algo inteiramente novo. O mesmo erro se repete agora com a internet. Muitos esperam que a internet sem fio seja igual à versão com fio, com a diferença de ser móvel. Isso é um equívoco. As páginas da web visualizadas num PC não se encaixarão em telefones ou computadores de mão. A internet móvel, ainda que fincada na mesma tecnologia da internet de linha fixa, será usada de maneiras inovadoras e inesperadas. Deverá basear-se no conteúdo e na tecnologia da internet convencional, mas, em vez de privilegiar a navegação por prazer, típica dos PCs, enfatizará o envio e o recebimento de pacotes de informação oportunos e relevantes. Naturalmente, a internet como a conhecemos continuará a existir.

O próprio termo "internet móvel" é problemático. "Serviços móveis de transmissão de dados" seria mais adequado. Outros nomes cogitados incluem "web sem fio", "serviços eletrônicos móveis" e "serviços on-line móveis". Adotamos aqui, para referência à transmissão móvel de dados, a expressão "internet móvel" - que, no futuro, talvez se revele tão inadequada quanto "telégrafo falante". Um dos pontos fortes do nome é que a palavra "internet " alude, tecnicamente, a uma rede formada por outras redes e é nisso exatamente que consistirá a internet móvel. Seria um erro igualar a internet móvel ao sistema 3G e supor que, uma vez que o 3G está enfrentando dificuldades, outros serviços da internet móvel também estariam com problemas. Trata-se, isto sim, de inúmeras redes sem fio interligadas e sobrepostas. Haverá, também, diversos tipos de dispositivos de acesso, incluindo laptops, computadores de mão e outros mecanismos que ainda nem foram imaginados. Redes e dispositivos distintos serão utilizados em situações diferentes por variados tipos de usuários em diversas partes do mundo. O que parece claro, entretanto, é que o telefone habilitado para a internet predominará entre os aparelhos de acesso móvel.

A combinação da internet com telefones sem fio apresentará desafios técnicos, empresariais e culturais. Em primeiro lugar, há um nítido conflito de atitudes entre usuários de internet e de aparelhos celulares. Usuários de internet esperam que os serviços sejam gratuitos e estão preparados para aceitar um certo grau de imperfeição tecnológica. Usuários de telefones móveis estão acostumados a pagar e querem, em troca, um nível de serviços e de confiabilidade consideravelmente mais alto. Aqueles que optam pela internet acusam as empresas de tecnologia móvel de não entender de transmissão de dados em rede. Quem prefere os serviços móveis classifica a tecnologia empregada na internet de caótica.

As diferenças entre esses dois mundos, contudo, também constituem oportunidades. Provedores de conteúdo enxergam na internet móvel um modo de passar a cobrar pelos serviços. Operadoras de redes sem fio consideram-se potenciais guardiões da internet móvel e podem abocanhar parte da receita gerada pelo comércio eletrônico, algo que os provedores de acesso por telefonia fixa não conseguiram fazer. Fabricantes de hardware e software vêem numerosas oportunidades em produtos capazes de interligar a internet e as redes móveis. Em resumo, a internet móvel representa a chance de se construir uma nova rede e, desta vez, fazer tudo certo - a partir dos erros cometidos por todas aquelas falidas empresas pontocom.

A maior aposta já feita na história do setor; o controle de uma mídia nova e abrangente; a oportunidade, enfim, de monetizar a internet: há, claramente, muita coisa em jogo. Alguns consideram essa visão excessivamente otimista. Mas, em muitas partes do mundo - e não só no Japão - milhões de pessoas, neste momento, estão usando telefones e outros dispositivos de mão para comunicar-se enquanto se deslocam. Em todo o planeta, já foram lançados os alicerces da mudança que resultará em serviços de comunicação mais avançados.

As três gerações de telefonia móvel

A primeira geração (1G) de telefones celulares, no mercado desde os anos 70, utiliza tecnologia analógica para transmitir chamadas de voz. A qualidade de som normalmente é baixa, o uso do espectro das frequências de rádio é ineficiente e as chamadas podem ser interceptadas com facilidade. Dos 800 milhões de usuários de telefone móvel no mundo, cerca de 70 milhões, principalmente nos países em desenvolvimento, ainda possuem aparelhos 1G.

A segunda geração (2G) de telefones móveis faz uso de codificação digital. A comunicação entre o aparelho e a estação rádio-base toma a forma de um feixe de dados criptografados, o que praticamente impossibilita a interceptação. Além das chamadas de voz, os telefones 2G também enviam e recebem dados e podem oferecer serviços limitados de transmissão de dados, como mensagens de texto e navegação através de Wireless Access Protocol (WAP), ou protocolo de acesso sem fio. A maioria dos aparelhos em operação hoje é 2G.

Os telefones de segunda geração aprimorados (2,5G), disponíveis no mercado há pouco tempo, aperfeiçoam a tecnologia 2G e oferecem serviços de melhor qualidade, incluindo maiores velocidades de transmissão e conexões sempre ativadas (always on). Os aparelhos podem operar com serviços mais avançados de transmissão de dados.

Os telefones de terceira geração (3G) oferecerão alta velocidade e conexões sempre ativadas, além de ser compatíveis com aplicações do tipo videotelefonia e serviços avançados de transmissão de dados, com acesso integral à internet. As redes 3G também são projetadas para operar com grande número de usuários de maneira mais eficiente que as redes 2G, para permitir expansões futuras.

Por que a internet móvel é diferente

Para começar, as pessoas estão acostumadas a pagar pelo que recebem. Essa é a porta que pode levar a uma infinidade de negócios.


Como ganhar dinheiro com a internet? No fim dos anos 90, essa era a pergunta que todos faziam. As respostas incluíam "construir comunidades", "garantir fidelidade", "B2C" (business-to-consumer), "B2B" (business-to-business) e outras. Muitas palavras entraram e saíram de moda e, no final, quase todas as pontocom foram à falência. O problema é que a receita de publicidade não bastava para manter a maioria dos sites e não havia nenhuma maneira padronizada de cobrar pelos serviços prestados na internet. Ainda não há. Pedir ao usuário que digite seus dados de cartão de crédito numa página da web causa preocupações e problemas de segurança e torna pouco práticas as compras de pequeno valor, que não passam de alguns dólares. Ao que tudo indica, há um punhado de sites que vendem livros, CDs, passagens aéreas e pacotes de férias que estão aptos a sobreviver, mas a maioria dos sites que oferecem notícias e conteúdo estão perdendo dinheiro. Vários tentam agora introduzir o sistema de assinatura paga; muitos outros fecharam as portas. Por que as coisas haveriam de ser diferentes na internet móvel?

A internet móvel é diferente da fixa em três aspectos importantes. Primeiro, o telefone móvel é um aparelho muito mais pessoal do que um PC. Em geral, é usado por apenas uma pessoa, que costuma levá-lo consigo a maior parte do dia. Enquanto as mensagens de e-mail vão para uma máquina parada em cima de uma mesa, as mensagens de texto vão diretamente para o usuário do celular, onde quer que esteja. Muitas vezes, a operadora da rede sabe exatamente quem é aquele usuário, incluindo seu nome e endereço. Para rotear as ligações que vão e vêm para um celular, a operadora da rede também precisa saber, a qualquer momento, onde está o aparelho - e, portanto, provavelmente, seu usuário.

Em segundo lugar, as operadores de rede decidem quais menus e serviços aparecerão na tela do celular. Se um usuário de PC tem grande liberdade para alterar as configurações do seu micro, no telefone móvel a única coisa que se pode mudar com facilidade é o som da campainha e o logotipo da tela. Determinar qual será o portal pré-estabelecido, isto é, a página inicial que o usuário vê ao conectar-se pelo celular, é uma grande vantagem, pois permite que as operadoras atuem como verdadeiros guardas nos portões da internet.

Isso tem um preço.

A terceira e mais importante diferença: todos sabem que usar o celular custa dinheiro e que existe um mecanismo para a operadora cobrar pela utilização. Mais ainda, parece que os usuários estão preparados para pagar uma "taxa extra de mobilidade", para fazer o que desejam enquanto estão em movimento. Mandar e-mail ou mensagens instantâneas pela internet a partir de um PC é basicamente grátis. Mandar uma mensagem de texto a partir de um telefone móvel custa, em média, 10 centavos de dólar. Mesmo assim, os usuários estão preparados para pagar - seja por que consideram o serviço barato, ou por que lhes facilita a vida. E mesmo quando é mais caro mandar mensagens de texto, as pessoas continuam enviando. Em alguns lugares, enviar uma mensagem de texto para casa enquanto se está "roaming" num país estrangeiro pode custar até 1 euro (92 centavos de dólar). Essas taxas estão sob investigação pela comissão da concorrência da União Européia. Contudo, a taxa parece razoável para muita gente, em comparação com o custo e o aborrecimento de comprar um cartão postal e um selo.

Em suma, se você tem telefone móvel, a operadora sabe quem você é, onde você está, direciona você para um determinado portal de abertura e ainda cobra pelos serviços. É um mundo bem diferente da internet fixa.

A telefonia móvel tem algumas desvantagens, é claro. A tela e o teclado são bem mais limitados que num PC e a conexão é mais lenta. Além disso, diz Niklas Savander, da Nokia, a mobilidade torna as pessoas muito mais impacientes. Pesquisas demonstraram que uma demora de cinco segundos para acessar alguma coisa por meio de um celular habilitado para a internet parece um tempo muito mais longo para o usuário do que uma espera de cinco segundos para acessar uma página da web navegando num PC. "Com o mesmo tempo de resposta, as pessoas consideram o celular mais lento", diz ele. "Assim, temos uma conexão mais lenta, mas os usuários desejam uma resposta mais rápida."

Para mim, aqui, agora.

A combinação desses três fatores - personalização, localização e disposição para pagar - possibilita muitos novos modelos de negócios. Tomi Ahonen, gerente da 3G Business Consulting na Nokia, dá o exemplo de alguém, no ponto de ônibus, que pega o telefone com acesso à internet para saber quando virá o próximo ônibus. A informação que lhe será enviada pode ser personalizada, refletindo o fato de que a localização do usuário é conhecida, e talvez também seu endereço residencial. Assim, as rotas de ônibus que passam por esses dois lugares podem aparecer no alto da lista, evitando ao usuário o trabalho de percorrer uma série de páginas e clicar em vários menus. Já está disponível na Itália um serviço semelhante: o usuário envia uma mensagem de texto e é informado sobre o horário em que chegará o próximo ônibus.

Mas os candidatos a provedores de serviços para a internet móvel não podem implantar seus servidores e esperar que o dinheiro comece a jorrar, pois as operadoras de rede - que sabem quem são e onde estão os usuários e controlam o sistema de cobrança - estão com todas as cartas na mão. Esse fato mudou o equilíbrio de poder entre os usuários, as operadoras de rede e os provedores de conteúdo.

Na internet fixa, o provedor de acesso à rede atua de maneira extremamente restrita entre o PC e um site - digamos, uma livraria ou agência de viagens on-line. O provedor de acesso não sabe como a conexão foi usada e não lhe é cobrar pelo serviço. Os operadores de rede móvel estão em posição muito mais forte. "A internet sem fio é um conduto mais inteligente", diz Chris Matthiasson, da BT Cellnet. Isso significa que é muito menos provável que as operadoras percam seu papel de intermediárias.

Mas, depois de evitar um erro cometido na internet fixa, as operadoras sem fio podem ser tentadas a cometer outro: erguer "jardins fechados" de serviços e conteúdos. Em tese, limitar os usuários a um punhado de serviços pré-aprovados possibilita às operadora capturar uma fatia muito maior dos esperados lucros da transmissão de dados. Nos anos 90, serviços on-line como AOL, Compuserve e Prodigy operavam segundo o princípio do "jardim fechado"; contudo, assim que um deles ofereceu acesso livre aos conteúdos da internet, os outros foram obrigados a segui-lo. O modelo do "jardim fechado" se revelará igualmente insustentável na internet móvel, pois essa limitação irrita e aborrece os usuários.

Além disso, ao contrário dos provedores de acesso à internet, as operadoras de telefonia sem fio cobram pelo uso, seja por tempo passado on-line, seja por bytes transferidos. Como as duas maneiras geram lucro, faz sentido oferecer aos usuários o leque mais amplo possível de conteúdos, para incentivá-los a pagar pela transmissão de dados. É assim que funciona o i-mode; a vasta maioria das receitas de dados da DoCoMo provém da transmissão e não da venda de conteúdo (embora a empresa cobre 9% sobre as vendas do conteúdo de outros provedores). Um usuário típico do i-mode no Japão gasta o equivalente a cerca de US$ 17 mensais em transferência de dados e apenas um quinto disso em assinaturas para acesso a conteúdo.

Sendo assim, as operadoras em geral oferecem uma seleção de serviços pré-aprovados, através de um portal escolhido por elas, e também dão aos assinantes a possibilidade de optar por outros portais. É isso que faz a AOL com seu serviço de internet por discador dial-up: oferece serviços como e-mail, mensagens instantâneas, salas de bate-papo e acesso à web. Entretanto, as pesquisas mostram que a maioria dos usuários continua passando a maior parte do tempo dentro da zona que antes era o "jardim fechado" da AOL. A melhor maneira para as operadoras manterem os usuários dentro dos seus "jardins fechados", diz Katrina Bond, da Analysys, é oferecer serviços atraentes. O fato de que as operadoras sabem quem são seus usuários e onde estão a cada momento - e podem guardar essas informações com exclusividade - dá uma grande vantagem aos seus serviços próprios ou pré-aprovados.

O resultado é que as operadoras precisam de bons conteúdos e serviços para atrair o tráfego; e os provedores de conteúdo precisam da cooperação das operadoras para cobrar pelo que oferecem. Diversos modelos de negócios já surgiram para governar as relações entre os dois tipos de empresas.

Onde está o dinheiro?

O modelo mais simples consiste em dividir as receitas provenientes das mensagens de texto. O portal Lycos oferece um serviço que permite que os usuários de PC enviem mensagens de texto a partir de uma página da web e recebam as respostas em seus telefones. O efeito desejado é estimular o tráfego de mensagens de texto entre telefones móveis e PCs. Os usuários de PCs não pagam para enviar as mensagens, mas os usuários de telefones móveis pagam. Através de acordos com as operadoras de telefonia móvel, a Lycos recebe uma comissão. Há outros serviços, como os jogos pelo telefone móvel, que incentivam os usuários de celular a enviar mensagens de texto. Isso gera uma receita extra, da qual o provedor de conteúdo recebe uma parte. Às vezes a operadora também cobra taxas mais altas por essas mensagens.

Outro modelo envolve o uso de mensagens de texto com taxas diferenciadas, como forma de cobrar por determinados pacotes de conteúdo, como um sinal de chamada, um logotipo ou um horóscopo. O usuário envia uma mensagem de texto para um número especial, é cobrado de acordo e recebe o conteúdo sob a forma de uma resposta à sua mensagem de texto.

Mais elaborado é um modelo também chamado de "cobrança reversa", em que os serviços são cobrados diretamente na conta telefônica do usuário. A operadora manda a conta para o usuário em nome do provedor de conteúdo e depois repassa o dinheiro a este.

Em teoria, a cobrança reversa poderia ser usada como forma de pagamento para o comércio on-line. Um livro, um CD ou uma entrada de cinema poderiam ser cobrados diretamente ao usuário, como se fosse um telefonema mais caro. E como as operadoras da telefonia móvel estão acostumadas a lidar com um grande número de transações de pequeno valor, seus sistemas conseguiriam processar essas transações por um décimo do custo de uma transação bancária ou de cartão de crédito. Isso significa que os micro-pagamentos, que nunca decolaram na internet fixa, são viáveis na móvel.

Entretanto, o usuários talvez prefiram pagar uma assinatura única, mais cara, do que uma pequena tarifa para cada informação que acessam. Seguindo o exemplo do i-mode, cujos sites funcionam com base em taxas mensais de assinatura, a T-Motion, portal móvel de propriedade da empresa alemã Deutsche Telekom, decidiu experimentar esse modelo para o conteúdo sem fio, a partir de 1 de novembro. Os assinantes do seu serviço T-Motion Plus pagarão 10 euros 10 (US$ 9) por mês para um pacote com diversos sons de campainha, mensagens de texto grátis, notícias gerais, financeiras e esportivas, jogos e previsão do tempo. A receita será dividida meio a meio com os provedores de conteúdo. A T-Motion monitorará a aceitação dos conteúdos e substituirá os serviços menos populares a cada três meses. Com este modelo, os serviços pagos não podem ser oferecidos de graça em outros portais, pois, do contrário, os usuários não estarão mais dispostos a pagar por eles. O efeito é criar uma espécie de "jardim fechado", com serviços exclusivos disponíveis apenas para os assinantes.

O modelo mais radical é o do "operador móvel virtual", no qual uma operadora vende por atacado o tempo de acesso para outra empresa. Esta se coloca no mercado à disposição dos usuários exatamente como uma operadora independente, com sua própria infra-estrutura de rede. A Virgin Mobile, operadora móvel britânica, é na verdade uma operadora virtual que revende tempo de acesso de voz e de dados numa rede que pertence a outra operadora, a One2One.

O sistema de operadoras virtuais permite que os provedores de conteúdo lucrem com as taxas de transferência, mas operadoras estão hesitantes quanto a adotar este conceito. Por um lado, as operadoras virtuais podem administrar sua marca de modo a atrair um leque mais amplo de consumidores, para, assim, aumentar o uso total da rede; ao mesmo tempo, porém, as operadoras virtuais transformam as operadoras de rede em condutos sem, digamos, inteligência própria, dando-lhes uma fatia menor na ação. Por enquanto, as operadoras em geral preferem lidar diretamente com os consumidores e não se tornarem atacadistas para as operadoras virtuais.

Em várias combinações, todos esses modelos já estão em uso, mas as operadoras continuam lutando para implementar novos sistemas de cobrança. A maioria delas, diz Savander, da Nokia, tem entre 20 e 40 sistemas de cobrança separados para lidar com diferentes tipos de serviços. Uma delas tem nada menos de 54. As desenvolvedoras de software estão competindo para oferecer sistemas consolidados de cobrança que comportem qualquer um desses modelos de negócios, ou todos eles.

Qual desses modelos será o mais bem-sucedido? Isso é algo que ainda estamos para ver, mas com certeza há dinheiro para se ganhar na internet móvel. Ao contrário da internet fixa, os usuários estão dispostos a pagar pelos conteúdos e serviços que realmente desejam acessar. Mas quais são esses conteúdos e serviços, exatamente? Assim como na internet fixa, há dois mercados distintos: consumidores e empresas. Embora ainda se esteja no início dessa nova fase, já há sinais de que haverá aplicações destinadas a grande sucesso nas duas áreas de negócios.

 

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