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A internet, livre como nunca
O sistema 3G de internet móvel
começa a ganhar o mundo, a partir do Japão. É
uma nova era, para usuários e empresas.
A
noite chega às ruas iluminadas por néon em Shibuya,
Tóquio. A cena lembra uma visão futurista. Ali estão
os edifícios coloridos, os enormes outdoors eletrônicos
e os grupos de adolescentes vestidos de modo exótico. E,
em toda parte, as pessoas falam e digitam em avançadíssimos
telefones celulares - minúsculos dispositivos que se fecham
como estojos de maquiagem, são incrivelmente leves e dispõem
de telas pequenas e coloridas, capazes de exibir um grafismo sofisticado.
Mais importante: esses aparelhos permitem que os usuários
acessem a internet enquanto se deslocam. No Japão, a internet
já é móvel.
Nesse aspecto, dizem
os profetas da internet sem fio, a cena vista em Shibuya é,
realmente, uma amostra do futuro. A convergência das duas
tecnologias de comunicação mais velozes de todos os
tempos - telefonia móvel e internet - possibilitará,
garantem esses observadores, que se criem inúmeros novos
serviços e um novo e vasto mercado, à medida que consumidores
no mundo todo passarem a se conectar à rede via telefones
habilitados para tal. Empresas de pesquisa de mercado e consultorias
prevêem que, até 2004, o número de usuários
da internet móvel chegue a um bilhão, contra os atuais
200 milhões.
Cifras como essas
motivaram operadoras de redes móveis no mundo inteiro a desembolsar
mais de US$ 100 bilhões, no ano passado, para adquirir licenças
de uso para redes de "terceira geração"
(3G). Ao contrário das redes de segunda geração
(2G), já existentes, os sistemas 3G são projetados
para manipular dados de modo rápido e eficiente, ao mesmo
tempo que transmitem chamadas de voz. Devem, portanto, constituir
uma das principais tecnologias a fundamentar a internet móvel.
As enormes quantias investidas no 3G configuram a maior aposta já
feita na história do setor para a introdução
de uma nova tecnologia. As operadoras tentam justificar os espetaculares
gastos com uma torrente de entusiasmo.
Entretanto, a desaceleração
do setor tecnológico e da economia mundial gerou dúvidas
quanto ao futuro do 3G. As gigantescas dívidas assumidas
pelas operadoras na compra das licenças e a necessidade de
cortar gastos para rolar esses compromissos são algumas das
causas do próprio desaquecimento econômico. Além
do custo das licenças, as operadoras terão de gastar
mais US$ 400 bilhões na construção das redes
3G. Para isso, começaram a formar parcerias com o objetivo
de compartilhar infra-estrutura e reduzir custos. Há, também,
sérias dificuldades técnicas a contornar. Todos esses
fatores concorreram para atrasar o início dos serviços:
a primeira rede 3G do mundo foi lançada no Japão em
1 de outubro, com cinco meses de atraso. Redes semelhantes em outras
partes do planeta chegarão meses, ou até anos, depois
do planejado.
Ao mesmo tempo,
as expectativas foram revistas. As operadoras não falam mais
da possibilidade de se assistir a videoclipes no trem ou conduzir
videoconferências dentro de um táxi. Em vez disso,
concentram-se em objetivos mais realistas, como usar o telefone
para acessar e-mail, fazer download de notícias e da previsão
do tempo e obter informações específicas de
uma localidade. Nesse meio tempo, diversas operadoras já
lançaram as chamadas redes "2,5 G" - redes 2G atualizadas,
que oferecem algumas das vantagens do 3G (em especial, uma conexão
para dados sempre ativada), mas custam bem menos. Isso significa
que o 3G não será a transformação repentina
e miraculosa originalmente anunciada, mas um evolução
natural dos sistemas atuais. Além disso, muita coisa já
é possível hoje, com as redes móveis existentes.
Em
meio à carnificina verificada no setor tecnológico,
uma importante transição está em andamento.
Mesmo com o atraso no lançamento do 3G, não demorará
para que o número de aparelhos celulares conectados à
internet supere o número de PCs ligados à rede mundial.
A Nokia, otimista, prevê que isso aconteça no ano que
vem; a Ericsson, outro fabricante de telefones, aposta em 2003;
e mesmos as previsões pessimistas não passam de 2005.
Os aparelhos provavelmente serão 2,5G, e não 3G, e
substituirão o PC no posto de dispositivo mais utilizado
para acessar a internet. Seja como for, o telefone logo será
o principal meio de ligação com a web.
Uma analogia óbvia
pode ser feita com o surgimento explosivo da internet via telefonia
fixa, há cinco anos. Em muitos aspectos, a internet móvel
encontra-se no mesmo estágio de desenvolvimento pelo qual
passava a internet fixa em 1995. Há centenas de pequenas
empresas no ramo e ninguém sabe ao certo quais tecnologias
ou modelos de negócios triunfarão, ou mesmo o que
esperam consumidores e usuários corporativos. São
várias as lições a serem aprendidas a partir
dos erros cometidos com a internet fixa. A assimilação
desses exemplos é crucial para que as companhias prosperem
no mercado de internet móvel.
Outra analogia,
menos óbvia, porém mais útil, remonta à
passagem do telégrafo elétrico para o telefone, ocorrida
nos últimos 25 anos do século 19. O telégrafo,
assim como a internet, foi uma tecnologia de comunicação
revolucionária, que transformou as práticas sociais
e de negócios, mas que só podia ser utilizada por
operadores qualificados. Os benefícios do sistema tornaram-se
disponíveis para o grande público apenas quando o
telégrafo evoluiu e converteu-se no telefone - inicialmente
conhecido como "telégrafo falante". A internet
ainda está no estágio "telegráfico"
de desenvolvimento, no sentido de que a complexidade e o custo dos
PCs ainda impedem muitas pessoas de usá-la. O aparelho celular,
portanto, promete fazer pela internet o que o telefone fixo fez
pelo telégrafo: transformou-o num tecnologia verdadeiramente
de massa.
Por usar os mesmos
fios, o telefone era visto, em princípio, meramente como
um telégrafo falante. Mas revelou-se algo inteiramente novo.
O mesmo erro se repete agora com a internet. Muitos esperam que
a internet sem fio seja igual à versão com fio, com
a diferença de ser móvel. Isso é um equívoco.
As páginas da web visualizadas num PC não se encaixarão
em telefones ou computadores de mão. A internet móvel,
ainda que fincada na mesma tecnologia da internet de linha fixa,
será usada de maneiras inovadoras e inesperadas. Deverá
basear-se no conteúdo e na tecnologia da internet convencional,
mas, em vez de privilegiar a navegação por prazer,
típica dos PCs, enfatizará o envio e o recebimento
de pacotes de informação oportunos e relevantes. Naturalmente,
a internet como a conhecemos continuará a existir.
O
próprio termo "internet móvel" é
problemático. "Serviços móveis de transmissão
de dados" seria mais adequado. Outros nomes cogitados incluem
"web sem fio", "serviços eletrônicos
móveis" e "serviços on-line móveis".
Adotamos aqui, para referência à transmissão
móvel de dados, a expressão "internet móvel"
- que, no futuro, talvez se revele tão inadequada quanto
"telégrafo falante". Um dos pontos fortes do nome
é que a palavra "internet " alude, tecnicamente,
a uma rede formada por outras redes e é nisso exatamente
que consistirá a internet móvel. Seria um erro igualar
a internet móvel ao sistema 3G e supor que, uma vez que o
3G está enfrentando dificuldades, outros serviços
da internet móvel também estariam com problemas. Trata-se,
isto sim, de inúmeras redes sem fio interligadas e sobrepostas.
Haverá, também, diversos tipos de dispositivos de
acesso, incluindo laptops, computadores de mão e outros mecanismos
que ainda nem foram imaginados. Redes e dispositivos distintos serão
utilizados em situações diferentes por variados tipos
de usuários em diversas partes do mundo. O que parece claro,
entretanto, é que o telefone habilitado para a internet predominará
entre os aparelhos de acesso móvel.
A combinação
da internet com telefones sem fio apresentará desafios técnicos,
empresariais e culturais. Em primeiro lugar, há um nítido
conflito de atitudes entre usuários de internet e de aparelhos
celulares. Usuários de internet esperam que os serviços
sejam gratuitos e estão preparados para aceitar um certo
grau de imperfeição tecnológica. Usuários
de telefones móveis estão acostumados a pagar e querem,
em troca, um nível de serviços e de confiabilidade
consideravelmente mais alto. Aqueles que optam pela internet acusam
as empresas de tecnologia móvel de não entender de
transmissão de dados em rede. Quem prefere os serviços
móveis classifica a tecnologia empregada na internet de caótica.
As diferenças
entre esses dois mundos, contudo, também constituem oportunidades.
Provedores de conteúdo enxergam na internet móvel
um modo de passar a cobrar pelos serviços. Operadoras de
redes sem fio consideram-se potenciais guardiões da internet
móvel e podem abocanhar parte da receita gerada pelo comércio
eletrônico, algo que os provedores de acesso por telefonia
fixa não conseguiram fazer. Fabricantes de hardware e software
vêem numerosas oportunidades em produtos capazes de interligar
a internet e as redes móveis. Em resumo, a internet móvel
representa a chance de se construir uma nova rede e, desta vez,
fazer tudo certo - a partir dos erros cometidos por todas aquelas
falidas empresas pontocom.
A maior aposta já
feita na história do setor; o controle de uma mídia
nova e abrangente; a oportunidade, enfim, de monetizar a internet:
há, claramente, muita coisa em jogo. Alguns consideram essa
visão excessivamente otimista. Mas, em muitas partes do mundo
- e não só no Japão - milhões de pessoas,
neste momento, estão usando telefones e outros dispositivos
de mão para comunicar-se enquanto se deslocam. Em todo o
planeta, já foram lançados os alicerces da mudança
que resultará em serviços de comunicação
mais avançados.
As três
gerações de telefonia móvel
A primeira geração
(1G) de telefones celulares, no mercado desde os anos 70, utiliza
tecnologia analógica para transmitir chamadas de voz. A qualidade
de som normalmente é baixa, o uso do espectro das frequências
de rádio é ineficiente e as chamadas podem ser interceptadas
com facilidade. Dos 800 milhões de usuários de telefone
móvel no mundo, cerca de 70 milhões, principalmente
nos países em desenvolvimento, ainda possuem aparelhos 1G.
A segunda geração
(2G) de telefones móveis faz uso de codificação
digital. A comunicação entre o aparelho e a estação
rádio-base toma a forma de um feixe de dados criptografados,
o que praticamente impossibilita a interceptação.
Além das chamadas de voz, os telefones 2G também enviam
e recebem dados e podem oferecer serviços limitados de transmissão
de dados, como mensagens de texto e navegação através
de Wireless Access Protocol (WAP), ou protocolo de acesso sem fio.
A maioria dos aparelhos em operação hoje é
2G.
Os telefones de
segunda geração aprimorados (2,5G), disponíveis
no mercado há pouco tempo, aperfeiçoam a tecnologia
2G e oferecem serviços de melhor qualidade, incluindo maiores
velocidades de transmissão e conexões sempre ativadas
(always on). Os aparelhos podem operar com serviços mais
avançados de transmissão de dados.
Os telefones de
terceira geração (3G) oferecerão alta velocidade
e conexões sempre ativadas, além de ser compatíveis
com aplicações do tipo videotelefonia e serviços
avançados de transmissão de dados, com acesso integral
à internet. As redes 3G também são projetadas
para operar com grande número de usuários de maneira
mais eficiente que as redes 2G, para permitir expansões futuras.
Por que a internet
móvel é diferente
Para começar,
as pessoas estão acostumadas a pagar pelo que recebem. Essa
é a porta que pode levar a uma infinidade de negócios.
Como
ganhar dinheiro com a internet? No fim dos anos 90, essa era a pergunta
que todos faziam. As respostas incluíam "construir comunidades",
"garantir fidelidade", "B2C" (business-to-consumer),
"B2B" (business-to-business) e outras. Muitas palavras
entraram e saíram de moda e, no final, quase todas as pontocom
foram à falência. O problema é que a receita
de publicidade não bastava para manter a maioria dos sites
e não havia nenhuma maneira padronizada de cobrar pelos serviços
prestados na internet. Ainda não há. Pedir ao usuário
que digite seus dados de cartão de crédito numa página
da web causa preocupações e problemas de segurança
e torna pouco práticas as compras de pequeno valor, que não
passam de alguns dólares. Ao que tudo indica, há um
punhado de sites que vendem livros, CDs, passagens aéreas
e pacotes de férias que estão aptos a sobreviver,
mas a maioria dos sites que oferecem notícias e conteúdo
estão perdendo dinheiro. Vários tentam agora introduzir
o sistema de assinatura paga; muitos outros fecharam as portas.
Por que as coisas haveriam de ser diferentes na internet móvel?
A internet móvel
é diferente da fixa em três aspectos importantes. Primeiro,
o telefone móvel é um aparelho muito mais pessoal
do que um PC. Em geral, é usado por apenas uma pessoa, que
costuma levá-lo consigo a maior parte do dia. Enquanto as
mensagens de e-mail vão para uma máquina parada em
cima de uma mesa, as mensagens de texto vão diretamente para
o usuário do celular, onde quer que esteja. Muitas vezes,
a operadora da rede sabe exatamente quem é aquele usuário,
incluindo seu nome e endereço. Para rotear as ligações
que vão e vêm para um celular, a operadora da rede
também precisa saber, a qualquer momento, onde está
o aparelho - e, portanto, provavelmente, seu usuário.
Em segundo lugar,
as operadores de rede decidem quais menus e serviços aparecerão
na tela do celular. Se um usuário de PC tem grande liberdade
para alterar as configurações do seu micro, no telefone
móvel a única coisa que se pode mudar com facilidade
é o som da campainha e o logotipo da tela. Determinar qual
será o portal pré-estabelecido, isto é, a página
inicial que o usuário vê ao conectar-se pelo celular,
é uma grande vantagem, pois permite que as operadoras atuem
como verdadeiros guardas nos portões da internet.
Isso tem um
preço.
A terceira e
mais importante diferença: todos sabem que usar o celular
custa dinheiro e que existe um mecanismo para a operadora cobrar
pela utilização. Mais ainda, parece que os usuários
estão preparados para pagar uma "taxa extra de mobilidade",
para fazer o que desejam enquanto estão em movimento. Mandar
e-mail ou mensagens instantâneas pela internet a partir de
um PC é basicamente grátis. Mandar uma mensagem de
texto a partir de um telefone móvel custa, em média,
10 centavos de dólar. Mesmo assim, os usuários estão
preparados para pagar - seja por que consideram o serviço
barato, ou por que lhes facilita a vida. E mesmo quando é
mais caro mandar mensagens de texto, as pessoas continuam enviando.
Em alguns lugares, enviar uma mensagem de texto para casa enquanto
se está "roaming" num país estrangeiro pode
custar até 1 euro (92 centavos de dólar). Essas taxas
estão sob investigação pela comissão
da concorrência da União Européia. Contudo,
a taxa parece razoável para muita gente, em comparação
com o custo e o aborrecimento de comprar um cartão postal
e um selo.
Em suma, se você
tem telefone móvel, a operadora sabe quem você é,
onde você está, direciona você para um determinado
portal de abertura e ainda cobra pelos serviços. É
um mundo bem diferente da internet fixa.
A telefonia móvel
tem algumas desvantagens, é claro. A tela e o teclado são
bem mais limitados que num PC e a conexão é mais lenta.
Além disso, diz Niklas Savander, da Nokia, a mobilidade torna
as pessoas muito mais impacientes. Pesquisas demonstraram que uma
demora de cinco segundos para acessar alguma coisa por meio de um
celular habilitado para a internet parece um tempo muito mais longo
para o usuário do que uma espera de cinco segundos para acessar
uma página da web navegando num PC. "Com o mesmo tempo
de resposta, as pessoas consideram o celular mais lento", diz
ele. "Assim, temos uma conexão mais lenta, mas os usuários
desejam uma resposta mais rápida."
Para mim,
aqui, agora.
A combinação
desses três fatores - personalização, localização
e disposição para pagar - possibilita muitos novos
modelos de negócios. Tomi Ahonen, gerente da 3G Business
Consulting na Nokia, dá o exemplo de alguém, no ponto
de ônibus, que pega o telefone com acesso à internet
para saber quando virá o próximo ônibus. A informação
que lhe será enviada pode ser personalizada, refletindo o
fato de que a localização do usuário é
conhecida, e talvez também seu endereço residencial.
Assim, as rotas de ônibus que passam por esses dois lugares
podem aparecer no alto da lista, evitando ao usuário o trabalho
de percorrer uma série de páginas e clicar em vários
menus. Já está disponível na Itália
um serviço semelhante: o usuário envia uma mensagem
de texto e é informado sobre o horário em que chegará
o próximo ônibus.
Mas os candidatos
a provedores de serviços para a internet móvel não
podem implantar seus servidores e esperar que o dinheiro comece
a jorrar, pois as operadoras de rede - que sabem quem são
e onde estão os usuários e controlam o sistema de
cobrança - estão com todas as cartas na mão.
Esse fato mudou o equilíbrio de poder entre os usuários,
as operadoras de rede e os provedores de conteúdo.
Na internet fixa,
o provedor de acesso à rede atua de maneira extremamente
restrita entre o PC e um site - digamos, uma livraria ou agência
de viagens on-line. O provedor de acesso não sabe como a
conexão foi usada e não lhe é cobrar pelo serviço.
Os operadores de rede móvel estão em posição
muito mais forte. "A internet sem fio é um conduto mais
inteligente", diz Chris Matthiasson, da BT Cellnet. Isso significa
que é muito menos provável que as operadoras percam
seu papel de intermediárias.
Mas, depois de evitar
um erro cometido na internet fixa, as operadoras sem fio podem ser
tentadas a cometer outro: erguer "jardins fechados" de
serviços e conteúdos. Em tese, limitar os usuários
a um punhado de serviços pré-aprovados possibilita
às operadora capturar uma fatia muito maior dos esperados
lucros da transmissão de dados. Nos anos 90, serviços
on-line como AOL, Compuserve e Prodigy operavam segundo o princípio
do "jardim fechado"; contudo, assim que um deles ofereceu
acesso livre aos conteúdos da internet, os outros foram obrigados
a segui-lo. O modelo do "jardim fechado" se revelará
igualmente insustentável na internet móvel, pois essa
limitação irrita e aborrece os usuários.
Além disso,
ao contrário dos provedores de acesso à internet,
as operadoras de telefonia sem fio cobram pelo uso, seja por tempo
passado on-line, seja por bytes transferidos. Como as duas maneiras
geram lucro, faz sentido oferecer aos usuários o leque mais
amplo possível de conteúdos, para incentivá-los
a pagar pela transmissão de dados. É assim que funciona
o i-mode; a vasta maioria das receitas de dados da DoCoMo provém
da transmissão e não da venda de conteúdo (embora
a empresa cobre 9% sobre as vendas do conteúdo de outros
provedores). Um usuário típico do i-mode no Japão
gasta o equivalente a cerca de US$ 17 mensais em transferência
de dados e apenas um quinto disso em assinaturas para acesso a conteúdo.
Sendo assim, as
operadoras em geral oferecem uma seleção de serviços
pré-aprovados, através de um portal escolhido por
elas, e também dão aos assinantes a possibilidade
de optar por outros portais. É isso que faz a AOL com seu
serviço de internet por discador dial-up: oferece serviços
como e-mail, mensagens instantâneas, salas de bate-papo e
acesso à web. Entretanto, as pesquisas mostram que a maioria
dos usuários continua passando a maior parte do tempo dentro
da zona que antes era o "jardim fechado" da AOL. A melhor
maneira para as operadoras manterem os usuários dentro dos
seus "jardins fechados", diz Katrina Bond, da Analysys,
é oferecer serviços atraentes. O fato de que as operadoras
sabem quem são seus usuários e onde estão a
cada momento - e podem guardar essas informações com
exclusividade - dá uma grande vantagem aos seus serviços
próprios ou pré-aprovados.
O
resultado é que as operadoras precisam de bons conteúdos
e serviços para atrair o tráfego; e os provedores
de conteúdo precisam da cooperação das operadoras
para cobrar pelo que oferecem. Diversos modelos de negócios
já surgiram para governar as relações entre
os dois tipos de empresas.
Onde está
o dinheiro?
O modelo mais
simples consiste em dividir as receitas provenientes das mensagens
de texto. O portal Lycos oferece um serviço que permite que
os usuários de PC enviem mensagens de texto a partir de uma
página da web e recebam as respostas em seus telefones. O
efeito desejado é estimular o tráfego de mensagens
de texto entre telefones móveis e PCs. Os usuários
de PCs não pagam para enviar as mensagens, mas os usuários
de telefones móveis pagam. Através de acordos com
as operadoras de telefonia móvel, a Lycos recebe uma comissão.
Há outros serviços, como os jogos pelo telefone móvel,
que incentivam os usuários de celular a enviar mensagens
de texto. Isso gera uma receita extra, da qual o provedor de conteúdo
recebe uma parte. Às vezes a operadora também cobra
taxas mais altas por essas mensagens.
Outro modelo envolve
o uso de mensagens de texto com taxas diferenciadas, como forma
de cobrar por determinados pacotes de conteúdo, como um sinal
de chamada, um logotipo ou um horóscopo. O usuário
envia uma mensagem de texto para um número especial, é
cobrado de acordo e recebe o conteúdo sob a forma de uma
resposta à sua mensagem de texto.
Mais elaborado é
um modelo também chamado de "cobrança reversa",
em que os serviços são cobrados diretamente na conta
telefônica do usuário. A operadora manda a conta para
o usuário em nome do provedor de conteúdo e depois
repassa o dinheiro a este.
Em teoria, a cobrança
reversa poderia ser usada como forma de pagamento para o comércio
on-line. Um livro, um CD ou uma entrada de cinema poderiam ser cobrados
diretamente ao usuário, como se fosse um telefonema mais
caro. E como as operadoras da telefonia móvel estão
acostumadas a lidar com um grande número de transações
de pequeno valor, seus sistemas conseguiriam processar essas transações
por um décimo do custo de uma transação bancária
ou de cartão de crédito. Isso significa que os micro-pagamentos,
que nunca decolaram na internet fixa, são viáveis
na móvel.
Entretanto, o usuários
talvez prefiram pagar uma assinatura única, mais cara, do
que uma pequena tarifa para cada informação que acessam.
Seguindo o exemplo do i-mode, cujos sites funcionam com base em
taxas mensais de assinatura, a T-Motion, portal móvel de
propriedade da empresa alemã Deutsche Telekom, decidiu experimentar
esse modelo para o conteúdo sem fio, a partir de 1 de novembro.
Os assinantes do seu serviço T-Motion Plus pagarão
10 euros 10 (US$ 9) por mês para um pacote com diversos sons
de campainha, mensagens de texto grátis, notícias
gerais, financeiras e esportivas, jogos e previsão do tempo.
A receita será dividida meio a meio com os provedores de
conteúdo. A T-Motion monitorará a aceitação
dos conteúdos e substituirá os serviços menos
populares a cada três meses. Com este modelo, os serviços
pagos não podem ser oferecidos de graça em outros
portais, pois, do contrário, os usuários não
estarão mais dispostos a pagar por eles. O efeito é
criar uma espécie de "jardim fechado", com serviços
exclusivos disponíveis apenas para os assinantes.
O modelo mais radical
é o do "operador móvel virtual", no qual
uma operadora vende por atacado o tempo de acesso para outra empresa.
Esta se coloca no mercado à disposição dos
usuários exatamente como uma operadora independente, com
sua própria infra-estrutura de rede. A Virgin Mobile, operadora
móvel britânica, é na verdade uma operadora
virtual que revende tempo de acesso de voz e de dados numa rede
que pertence a outra operadora, a One2One.
O sistema de operadoras
virtuais permite que os provedores de conteúdo lucrem com
as taxas de transferência, mas operadoras estão hesitantes
quanto a adotar este conceito. Por um lado, as operadoras virtuais
podem administrar sua marca de modo a atrair um leque mais amplo
de consumidores, para, assim, aumentar o uso total da rede; ao mesmo
tempo, porém, as operadoras virtuais transformam as operadoras
de rede em condutos sem, digamos, inteligência própria,
dando-lhes uma fatia menor na ação. Por enquanto,
as operadoras em geral preferem lidar diretamente com os consumidores
e não se tornarem atacadistas para as operadoras virtuais.
Em várias
combinações, todos esses modelos já estão
em uso, mas as operadoras continuam lutando para implementar novos
sistemas de cobrança. A maioria delas, diz Savander, da Nokia,
tem entre 20 e 40 sistemas de cobrança separados para lidar
com diferentes tipos de serviços. Uma delas tem nada menos
de 54. As desenvolvedoras de software estão competindo para
oferecer sistemas consolidados de cobrança que comportem
qualquer um desses modelos de negócios, ou todos eles.
Qual desses modelos
será o mais bem-sucedido? Isso é algo que ainda estamos
para ver, mas com certeza há dinheiro para se ganhar na internet
móvel. Ao contrário da internet fixa, os usuários
estão dispostos a pagar pelos conteúdos e serviços
que realmente desejam acessar. Mas quais são esses conteúdos
e serviços, exatamente? Assim como na internet fixa, há
dois mercados distintos: consumidores e empresas. Embora ainda se
esteja no início dessa nova fase, já há sinais
de que haverá aplicações destinadas a grande
sucesso nas duas áreas de negócios.
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