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Entrevista
David Brooks
Sem tempo para pensar
Para
o jornalista americano, autor de um dos mais
incensados livros dos últimos tempos,
a sociedade da Era da Informação
está viciada em tecnologia. E o custo
disso pode ser o fim da criatividade
Por
Tania Menai, de Nova York
O
jornalista David Brooks é uma espécie
de cronista da sociedade americana e de suas
transformações. No ano passado,
Brooks, um ex-correspondente do The Wall Street
Journal na Europa, na África do Sul
e no Oriente Médio, escreveu Bobos
in Paradise, the New Upper Class and How They
Got There (em português, Burgueses boêmios
no paraíso, os membros da nova classe
alta e como eles chegaram lá). O livro,
um retrato das aspirações, comportamentos,
visões de mundo e incongruências
da sociedade americana na década de
90, logo se transformou num best-seller. Um
de seus assuntos prediletos, nos últimos
tempos, tem sido a dependência cada
vez maior da alta tecnologia.
Segundo
ele, o e-mail, os telefones celulares, os
computadores portáteis, ao mesmo tempo
que prometem tornar nossas vidas mais práticas
e rápidas, cobram um preço alto
de indivíduos e corporações.
"O problema com toda essa velocidade,
e a frenética energia que é
usada para gastar o tempo de maneira eficiente,
é que isso solapa a criatividade",
escreveu em um recente artigo para a revista
Newsweek. Atualmente, Brooks é editor
sênior da revista política Weekly
Standard. Mas seus textos, sempre bem-humorados,
aparecem freqüentemente em publicações
como The New York Times Magazine e Atlantic
Monthly. Como ele arranja tempo? Aos 39 anos,
Brooks diz que escreve muito rápido.
Mas a tecnologia não é a principal
razão de sua vida acelerada. "Quando
você tem três filhos - de 10,
7 e 2 anos -, o ritmo não pode ser
diferente", afirma ele, que viaja o país
inteiro e, por isso, depende do telefone celular.
Há alguns dias, Brooks conversou com
EXAME em Nova York.
Logo
depois, voou para Bethesda, nos subúrbios
de Washington, onde mora com a família.
Em plena tarde de terça-feira, não
queria perder a partida de beisebol do filho.
A
dependência da tecnologia está
interferindo nas relações humanas?
Antes de mais nada, ela está afetando
a mentalidade das pessoas. Não muito
tempo atrás, era normal dirigir por
2 ou 3 horas e não falar com ninguém.
Mas, com o telefone celular, as pessoas passaram
a sentir a necessidade de se comunicar a todo
instante. Não fazer ou receber ligações
as deixa em pânico, como se estivessem
perdendo alguma coisa. É como ter três
filhos pequenos: a cada 15 segundos há
alguma novidade. O vício de receber
informações a cada 15 segundos
acabou com os momentos de distração
e reflexão. É como um vício,
e a compulsão pelo uso do telefone
celular é seu principal sintoma.
E
nas relações corporativas, o
que mudou?
Os americanos se vêem como pioneiros
do mundo ocidental. Hoje, o que temos é
o pioneirismo na exploração
da floresta das comunicações
- recebemos um número imenso de e-mails,
livros, artigos, indicações
de websites. A sociedade está se aprimorando
em selecionar o que presta e o que deve ser
jogado fora, e um novo tipo de percepção
vem se desenvolvendo. Cada vez mais as pessoas
pensam: "Meu tempo - e não meu
dinheiro - é a coisa mais preciosa
que possuo. Vou protegê-lo daqueles
que pretendem roubá-lo de mim".
Isso afeta a vida das empresas. Elas devem
ter certeza de que não estão
fazendo ninguém perder tempo. Outra
coisa importante é saber ultrapassar
os filtros impostos pela sociedade. Ou seja,
como ser um Pablo Picasso ou um Andy Warhol,
capazes de brilhar em meio a esse bombardeio
de informação e imagens. As
empresas precisam desenvolver suas marcas
- a maneira corporativa de chamar a atenção
de quem está a sua volta.
Isso
não fica mais difícil num mundo
no qual boa parte das empresas e de seus profissionais
tem acesso às mesmas informações?
Sim. Há alguns anos, um profissional
que ficasse longe da sede de sua empresa por
algum tempo conseguiria desenvolver uma cultura
própria. Hoje, todos estão conectados
a algum lugar. Fazemos parte do mesmo barco.
Há um problema nisso: estamos envolvidos
com o mesmo fluxo de informações,
recebemos os mesmo e-mails, somos alimentados
com as mesmas fontes. Assim, fica muito difícil
aparecer alguém que veja o mundo de
forma diferente da de seus colegas, que pense
em soluções nas quais ninguém
pensou antes. Nosso desafio é encontrar
tempo para ler o que os outros não
estão lendo ou buscar fontes de informação
que as outras pessoas não têm.
Assim, poderemos nos diferenciar e trazer
algo novo para a empresa, em vez de apenas
reciclar o que todos já sabem.
Como
esse círculo vicioso afeta a atuação
diante do mercado?
Se você dirigir 2 horas em direção
ao Nordeste dos Estados Unidos, chegará
ao centro do Estado da Pensilvânia.
Lá não há The New York
Times, Wall Street Journal ou Starbucks. Algumas
pessoas têm telefones celulares, mas
não muitas. Trata-se de uma realidade
completamente diferente. Isso nos faz perguntar
se essas pessoas estão vivendo no mesmo
mundo que nós. Como nos comunicar com
elas, se vivemos num ambiente no qual todos
têm telefones celulares e lêem
os mesmos jornais? Diante de questões
como essa, as empresas podem simplesmente
acabar se afastando de muitos de seus consumidores
potenciais. E ainda há, é claro,
o problema da diferença de renda. Sempre
digo que há, hoje, duas grandes tendências,
e elas estão interligadas. Uma é
a economia global. A outra é a purificação
da meritocracia. A sociedade está cada
vez mais afiada na seleção dos
melhores. Estamos nos aprimorando em escolher
a dedo os melhores entre os "quase bons",
seja nas faculdades ou nas empresas. Isso
pode destruir a qualidade. À medida
que elevamos os excelentes, eles ingressam
num mundo isolado, onde quem não for
tão inteligente nem possuir um bom
diploma ou habilidades profissionais compatíveis
com as suas nunca terá chance de entrar.
Como
o ritmo frenético da tecnologia está
transformando o mercado?
As tendências estão mudando numa
velocidade inédita. Estive recentemente
em Hendersen, no Estado de Nevada, a cidade
que cresce mais rápido nos Estados
Unidos. Não tenho os números
precisos. Mas há dez anos havia algo
como 8 000 habitantes naquela cidade. Hoje
são 400 000. Todas as grandes redes
de lojas do varejo - Toys R Us, Office Depot,
Home Depot - já fincaram suas bandeiras
por lá. As empresas grandes têm
dinheiro para inovações supersônicas,
como abrir lojas no meio do deserto, além
de detectarem mudanças geográficas
e altas concentrações demográficas.
Hoje, não há loja em Hendersen
que você não encontre em Nova
Jersey ou em qualquer outra grande cidade
americana. Pequenos empresários dispostos
a abrir uma filial em Hendersen estão
perdidos. Todos os gigantes já chegaram
primeiro.
Recentemente,
o senhor passou alguns dias analisando alunos
no campus da Universidade Princeton, de onde
saem muitos dos melhores profissionais do
país, os líderes dos negócios
do amanhã. Como eles se comportam?
Os jovens de Princeton são produtos
dessa purificação da meritrocacia
que mencionei antes. Eles encaram tudo com
uma postura profissional, estão ávidos
por agarrar cada oportunidade e subir na vida.
Conversando com você, vejo que seria
uma ótima idéia se esses jovens
passassem uma temporada no Rio de Janeiro
para experimentar um pouco de prazer, em vez
de viver essa obsessão pelas grandes
realizações. No curto prazo,
eles darão uma injeção
de produtividade na economia americana, já
que trabalham pesado. Mas, no longo prazo,
vão sentir necessidade de buscar um
pouco de encantamento na vida e em suas idéias.
Essa
busca pelo encantamento da vida não
faz parte do comportamento dos "bobos",
os burgueses boêmios descritos em seu
livro?
Os "bobos" são os americanos
que fundiram os valores dos boêmios
dos anos 60 com os dos burgueses da década
de 80. Eles procuram mesclar alta renda e
ideais nobres e parecem ter absorvido bem
a dança do mercado de ações.
O maior estímulo que os "bobos"
têm é saber que quem tiver uma
boa educação acadêmica
terá uma grande possibilidade de ser
recompensado com bons salários.
A
indústria tecnológica não
pára de inventar novos aparelhos, que
supostamente vão facilitar nossas vidas.
Há um limite para o consumo desses
equipamentos mirabolantes?
Os "bobos" têm uma postura
social mais anticonsumista do que as pessoas
tinham há 30 anos. Mas a verdade é
que eles estão comprando cada vez mais.
Sempre há um celular melhor ou menor.
Isso não pára.
Hoje
há vida sem telefone celular?
Atualmente o novo símbolo do status
social é não ter telefone celular.
Isso mostraria que "você é
tão importante que nem liga para o
fato de que há gente o procurando".
As pessoas estão tentando chegar lá,
mas continuo vendo cada vez mais gente com
BlackBerries (pagers que enviam e recebem
mensagens eletrônicas) nas mãos,
que elas plugam nos computadores para checar
seus e-mails remotamente. Presenciei uma cena
como essa outro dia, durante um vôo.
Os passageiros ficaram amarrados aos seus
celulares até o último minuto
possível. Mesmo com o avião
prestes a decolar, eles falavam freneticamente,
ávidos para obter a última gota
de informação disponível.
Ao desligar os aparelhos, passaram a se comportar
como se estivessem famintas ou no fundo do
oceano, sem poder respirar.
Com
essa obsessão, como fica a questão
da privacidade?
Falta de privacidade é algo com que
teremos de conviver. O conceito de privacidade
não existia na História humana.
É algo que começou a ser disseminado
nos últimos 100 anos. Ou até
menos. Até pouco tempo atrás,
pessoas de uma mesma família dormiam
no mesmo quarto e andavam nuas em casa. Na
Rússia, toda a população
de algumas cidades tomava banho junta. Todo
mundo sabia sobre a vida de todo mundo. Entramos
nesse mundo de privacidade à medida
que fomos enriquecendo. Mas a tecnologia garantiu
às empresas formas de saber uma série
de coisas sobre nós, e não há
como controlar isso. Veja a Amazon.com: se
você compra este ou aquele livro, eles
já sabem quais os temas que lhe interessam.
A Clareton, uma empresa localizada no Estado
de Virgínia, faz relações
do tipo "se você gosta deste carro,
é provável que adore este par
de sapatos".
O
senhor também diz que Palo Alto, na
Califórnia, onde se concentram as empresas
de alta tecnologia, tornou-se o epicentro
da década de 90, assim como Woodstock
foi o dos anos 60 e Wall Street dos 80. Hoje,
onde está esse epicentro de mudanças?
Um ou dois anos atrás, o pessoal de
Palo Alto acreditava que estava escrevendo
a história do mundo e que ninguém
mais no planeta entendia de história
ou de futuro. Outros grupos, em outros países
e em outras épocas, já pensaram
assim - incluindo Washington no campo da política.
Diria que hoje quem está no epicentro
do mundo é a turma da biotecnologia.
As
grandes invenções do último
século nasceram em Palo Alto?
Não. As duas invenções
de maior impacto nos últimos 100 anos
foram a televisão e oar-condicionado,
que fizeram com que as pessoas ficassem em
casa à noite. Eles também permitiram
que profissionais e empresas migrassem da
costa leste americana para lugares mais quentes,
como o Texas. Outro grande invento foi a geladeira,
que veio antes do ar-condicionado e permitiu
a venda de produtos perecíveis.
E
qual será o próximo aparato
tecnológico sem o qual não poderemos
sobreviver?
Boa pergunta... Alguém (o inventor
americano Dean Kamen) ganhou milhões
de dólares escrevendo um livro chamado
Ginger, sobre uma invenção ainda
secreta que, supostamente, revolucionará
o mundo. Sabemos que é algo relacionado
a transporte. Esse mesmo autor desenvolveu
uma cadeira de rodas que sobe degraus. Num
recente artigo, mencionei um invento meu:
um aparelho fictício, feito de placebo,
que seria usado para checar mensagens. Ele
nem precisaria de pilhas para funcionar. A
vantagem é que o usuário nunca
encontraria recados novos. Assim, ele se acostumaria
a não ter acesso a novidades a cada
15 segundos e aprenderia a experimentar a
vida, em vez de gastar todo o seu tempo em
busca de informação. Isso não
seria ótimo?
O
senhor escreveu que "grandes impérios
deixaram para o mundo grandiosidades como
o Coliseu ou o Panteão, em Roma. Já
os americanos deixam detritos de um entusiasmo
insustentável". Ou seja, um amontoado
de computadores obsoletos. Sria isso uma vazia
adoração pela tecnologia?
Na Europa, os turistas procuram lugares como
Veneza, Paris ou Bruxelas. Isso nos faz perguntar
o que, no futuro, as pessoas vão ver
dos 500 anos da história americana.
Devemos lembrar que aquelas civilizações
européias foram aristocráticas
- produziram culturas de alto nível,
construíram grandes catedrais, pinturas
e estilos de vida luxuosos. Em nossa época,
e especialmente nos Estados Unidos, o que
produzimos são subúrbios e produtos
para tornar a vida mais prática: seriados
de televisão, filmes e prédios
altos. Nos entusiasmamos ao pensar que nossas
invenções vão mudar a
História. Depois de inventarmos o automóvel
ou a Internet, percebemos que eles fazem parte
de um conjunto de criações legais,
mas que não mudaram o mundo. Então
partimos para outra coisa que nos entusiasme,
deixando para trás uma parafernália
em forma de lixo.
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